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quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Ciúme de você



Janjão era um baita baixista. Um groove sensacional, excelente pegada, um músico de primeira. Também era um profissional dedicado: constante nos ensaios, músicas sempre bem tiradas, horários de shows cumpridos, instrumento e equipamento sempre em ordem, birita só depois do show.


Tudo muito bom, tudo muito bem, mas, apesar de todos esses pontos a favor Janjão era carne de pescoço. Um mau humor já folclórico entre os músicos com quem costumava tocar. Uma cara sempre meio fechada, cigarro no canto da boca (embora, quando a banda tocava com pegada, mandando aquele seu tema de jazz preferido, ou aquele blues cheio de feeling, dava pra ver um projeto de sorriso). Uma figuraça.

Janjão também era louco pra se meter em uma encrenca, um típico sujeito metido a machão que, intimidando os rivais com seu metro e noventa, não era de levar muito desaforo pra casa não.

Mas um dia, alguém dobrou esse valentão. Seu nome era Roberta - ou, simplesmente, Bebé.

Loirinha, olhos azuis enormes, rosto de menininha. Delicada, meiga, bem humorada, fã da Sade e da Norah Jones. Ninguém diria que, em qualquer circunstância do mundo real, iriam se apaixonar... mas o mundo real nunca primou por fazer sentido. Dois meses depois daquele guardanapo pedindo "Smooth operator", trocaram as alianças de compromisso.

Bebé acompanhava os shows do namorado com prazer. Sempre que podia, lá estava ela nas Vilas Olímpia ou Madalena (ou qualquer canto de Sampa), curtindo sua cerveja, pedindo músicas e aplaudindo. Na maioria das vezes, ia com as amigas e conversava também com todas as esposas do baterista e do saxofonista. Mas um dia todo mundo furou e Bebé ficou na mesa sozinha.

Ela não se importou... mas Janjão não gostou nada, nada. Errou tudo o que tinha direito no show, tocou distraído, não tirou o olho da sua Bebé. Encarou um sujeito sentado sozinho na outra ponta do bar com seu melhor olhar de ogro- o desgraçado tava secando sua mina! Até o tecladista, que era totalmente zen, olhou meio torto - errar "I feel good" foi demais, bicho!

A próxima música era uma de suas favoritas - e uma das melhores que a banda fazia. Todo mundo improvisava, aquele som exigia o melhor de todos e o resultado sempre era ótimo. Não podia fazer feio. Mesmo porque era a última música antes do intervalo e aí já ia chegar junto da sua namorada e deixar bem claro para o bar inteiro - principalmente pra aquele filadamãe sentado na outra ponta - que aquela loirinha estava muito bem acompanhada.

Improviso de batera. Solo maravilhoso! Banda inteira de olhos fechados, curtindo o som. Menos Janjão, que mantinha os olhos bem abertos e as antenas bem ligadas.

Junta-se o baixo. Janjão improvisa alguns compassos e faz uma pausa. É a deixa do guitarrista que, de olhos fechados, entra com um solo inspiradíssimo e pensando: "grande Janjão! Tem tanto feeling que parou para a guitarra entrar com tudo!". Levou um baita susto quando o batera parou no meio da estrofe e começou a gritar: "Larga o cara! Larga o cara!".



Janjão parou seu solo foi pra sentar a porrada naquele filadamãe que, descaradamente, olhou para a bunda de sua namorada quando ela se levantou para ir ao banheiro. A banda inteira foi apartar, uns clientes do bar saíram correndo (uns com medo, outros aproveitaram a zona pra sair sem pagar), outros também tentaram separar. Bebé ficou sem ação.

Saldo da noite: banda expulsa do bar, Janjão expulso da banda e três dentes expulsos da boca do filadamãe que, sim, tinha olhado descaradamente para a bunda daquela loirinha gata que estava sozinha, numa mesa próxima ao palco.




PS: Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos nossos protagonistas. Mas que aconteceu, ah, isso aconteceu!

sábado, 18 de julho de 2009

Lei antitabagismo

No longínquo 29/10/2008, o Barzinho postou...



... e, eis que, precisamente em 08/07/2009, depois de muita polêmica, blá blá blá e nhem nhem nhem:
Motivos para comemorar? Certamente...

...maaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaas...

1- Quantos fiscais teremos para garantir que, nos milhares de estabelecimentos de Sampa, essa lei será cumprida? E mais ainda: destes (certamente poucos) profissionais, qual deles não aceitará uma boa propina para "fingir que não viu"?

2- O que vamos fazer ao ver alguém fumando dentro de um barzinho ou qualquer estabelecimento público que se enquadre na lei? Chamar a polícia? Avisar o dono do bar? E o que o dono do bar vai fazer? Expulsar o cliente?


Quando a lei vem para impor o bom senso, sabemos que o resultado sempre é parcial. Dá certo por um mês, dois, seis quando muito. Depois, como tudo nesse país, começa a avacalhação.

Aqui é preciso ter "leis de semancol"; por exemplo, a que garante assento nos transportes públicos para idosos, gestantes, pessoas com dificuldade de locomoção e com crianças de colo. Gente, vamos combinar que é meio óbvio que essas pessoas precisam se sentar? E por que chegamos ao ponto de ter uma lei para isso? A resposta básica se encontra na falta de educação generalizada.

Outro exemplo clássico é a lei seca. Não é óbvio que, ao beber, não se deve dirigir?



A lei antitabagismo acaba seguindo essa mesma lógica. Quem não fuma detesta ficar em ambientes fechados cheios de fumaça. No mundo ideal, os fumantes teriam um lugar exclusivo para fumar sem que o cheiro e a fumaça incomodassem outras pessoas. Mas, muitas vezes até por falta de um lugar assim nos bares/ baladas, fica tudo empesteado. Falta geral de bom senso... e tome lei.

Vejamos no que vai dar.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Paráfrase

Diz a amiga Wiki sobre um mito americano:

"A morte, causada por colapso fulminante associado à disfunção cardíaca, surpreendeu o mundo provocando comoção como poucas vezes fora vista em nossa cultura; inclusive no Brasil. Os fãs se aglomeraram em maior número em frente a mansão."




Querem mais uma dica sobre de quem se trata? Vamos lá: é sobre um cara que nasceu pobre, e, depois de muito ralar, ficou conhecido como "O Rei" em seu segmento. Estabeleceu recordes de vendagens de álbuns.




Ficou fácil, né? Ou ainda não? Ok, mais umas dicas:


Em seu trabalho musical, uniu o melhor das música negra e branca - um grande feito num país tão racista quanto os "isteitis".


Sua forma de dançar potencializou sua revolução musical, com movimentos que ninguém antes havia realizado em um palco.

Sim, estamos falando dele mesmo:



Os tempos seguem e parafraseiam-se...

sábado, 29 de novembro de 2008

A arte de irritar um músico profissional - no show

Mais um post da série "A arte de irritar um músico profissional". Transforme o palco em um inferno seguindo as dicas abaixo!




Pô bicho, szabe que que é? Tô muito loooooooco!




Beba até perder a noção do ridículo. Erre todas as músicas. Pare o show para fazer strip-tease. Derrube cerveja nos instrumentos e equipamentos de seus companheiros de banda e no cabelo daquela patricinha que sempre fica na frente do palco. Faça do seu amplificador um trampolim. Caia em cima da bateria - ou em cima do que quer que seja. Master: vomite no palco.


Pô bicho, sabe que que é? Esqueci um negócio e vou ter que voltar pra buscar!




Sugestões de coisas interessantes que você pode esquecer para atrasar o show:

- Baterista: monte a bateria inteira e se dê conta de que esqueceu o pedal do bumbo na porta de casa. Esquecer as ferragens, os pratos, a caixa e as baquetas também são boas opções.

- Guitarrista: esqueça o cabo do amplificador. Ou melhor, esqueça o amplificador.

- Baixista: esqueça o cabo do baixo e ligue o instrumento em linha, embolando todo o som.

- Tecladista: esqueça a fonte e fique tocando meia-lua (aquele pandeirinho idiota) no cantinho do palco. Nível master se a banda for de rock dos anos 50.

- Violonista: esqueça a bateria do pré-amp e arrebente a mão tocando com toda a força.

- Vocalista: esqueça o cabo do microfone ou as pilhas do microfone sem fio. Aliás, esqueça o microfone também. Se você é daqueles que não andam sem a pasta de letras, esqueça a estante e equilibre a pasta numa cadeira.

- Violinistas/ violistas/ cellistas/ contrabaixistas: esqueçam o arco.

- Saxofonistas/ clarinetistas: esqueçam as palhetas.

- Trombonistas/ trumpetistas: esqueçam os bocais.


Pô bicho, sabe que que é? Nem rola passar o som!



"Passagem de som? Regular volume? Regular timbre? Chegar antes? Pra que isso?! Não tem mistério, é só chegar e tocar!" - diga isso com a maior naturalidade do mundo. Vá buscar sua namorada em casa, do outro lado da cidade, e chegue em cima da hora. Master: seja o responsável por levar todo o equipamento da banda.


Pô bicho, sabe que que é? Não tô me ouvindo!



Ensurdeça seus companheiros de palco e o público aumentando o volume a cada música. Encubra completamente a voz e qualquer instrumento solista. Esmurre a bateria, coloque o volume do seu amplificador no 10, queira aparecer sozinho. Master: saia no tapa com quem o mandar abaixar o volume.



Pô, bicho, sabe que que é? Esqueci esse lance da roupa!




Não vá com o figurino que a banda combinou. Vá de terno se todos combinaram calça jeans. Vá com uma bermuda camuflada, seus tênis mais velho e uma camiseta desbotada quando combinarem smoking. Vá todo de preto quando combinarem as cores (e vice-versa). Master: pegue a roupa de alguém emprestada e toque parecendo um espantalho.


Siga esses passos e faça a vida de um músico mais infeliz! É tiro e queda!


domingo, 23 de novembro de 2008

A arte de irritar um músico profissional - ensaio

Pô bicho, sabe que que é? Nem deu pra tirar as músicas!


Chegue sem ter a menor idéia de nada. Peça para alguém colocar a música para você tirar na hora. Diga que tirou e, na hora de tocar, toque tudo errado. Espere alguém perguntar o porquê de você não ter tirado as músicas e responda que esqueceu, ou que não teve tempo.

Master: Faça isso próximo a um show, com um repertório ainda inseguro.



Pô, bicho, sabe que que é? Nem deu pra ir!




Não vá ao ensaio e não avise ninguém. Deixe o celular desligado ou deixe os trouxas da banda ligarem até dar caixa postal. Não pegue os recados. Não ligue no dia seguinte para dar satisfações. Deixe um outro trouxa te ligar pra perguntar o que aconteceu. Dê uma desculpa esdrúxula do tipo "roubaram o som do meu carro e não deu pra eu sair".

Master: Faça o resto da banda desmarcar compromissos para ensaiar e não dê as caras.



Pô, bicho, sabe que que é? Nem rola levar pra arrumar!

Mantenha seu instrumento em péssimas condições. Sugestões:

Bateria: deixe as peles em estado deplorável. De preferência, rasgadas. Toque com o pedal do bumbo quebrado, de forma que, no meio da música, ele quebre de vez. Toque com pratos rachados, de modo que pareça ter uma casacavel em cada um. Quebre todos os pares de baquetas.

Guitarra e baixo e violão: deixe bem desregulado, de forma que não afine de jeito nenhum. Toque com as cordas apodrecidas e enferrujadas. Use cabos quebrados, ou deixe o jack (parte onde o cabo é plugado) solto ou com mau-contato, de modo a fazer aquele barulho insuportável de estouro toda hora. Deixe seus pedais de efeito todos desregulados. Deixe o amplificador com o pior timbre possível. Toque o mais alto que o amplicador permitir.

Teclado: deixe-o com mau contato na fonte. Tenha pelo menos uma tecla que esteja com defeito e não toque - de preferência, em um solo. Tenha o pior banco de timbres possível.

Microfone: tenha um cabo podre para ligá-lo. Deixe o botão "on-off" quebrado para que o microfone desligue e ligue a hora que bem entender. Derrube-o diversas vezes para amassá-lo bem e deixar com um som bem abafado, como se estivesse cantando em uma privada.


Pô bicho, sabe que que é? Se eu não deixo o celular ligado minha mulher briga comigo!
Gaste todos os seus créditos na hora do ensaio. Fale com sua mulher, namorada, etc (ou com seu marido, namorado, etc) a cada meia hora. Discuta a relação por telefone. Quando aquele seu tio ligar pra tirar sarro porque o seu time perdeu, enrole bastante - inclusive cobrando aquele churras que, há tempos, ele diz que vai fazer no seu aniversário. Pergunte sobre a família inteira. Discuta relatórios com seu colega de trabalho.

Master: Brigue quando alguém pedir pra você desligar ou quiser continuar tocando enquanto você fala


Pô, bicho, sabe que que é? Nem tô a fim de tocar hoje!


Ensaie com toda a má vontade do mundo. Toque olhando para o relógio. Fique de cara fechada e não olhe nos olhos de ninguém. Erre sempre no mesmo pedaço e não se preocupe em corrigir.

Master: Quando alguém perguntar se está tudo bem, diga que está tudo ótimo e só está tocando de má vontade mesmo.


Pô bicho, sabe que que é? Não rola uma pausa pro cigarro?


Pare, no mínimo, umas quatro vezes por hora pra fumar. Fume saboreando cada milímetro de nicotina, sem um pingo de pressa. Se possível, jogue a fumaça em si mesmo para voltar empesteado com o cheiro de cigarro.

Master: Tenha a falta de educação de fumar dentro do local de ensaio, de preferência ao lado do cantor.



Siga essas dicas com freqüência para aumentar o estresse de um músico profissional! Claro que, uma vez ou outra, um deslize a gente pode perdoar, desde que consigamos perceber que é uma eventualidade ou uma necessidade casual (como deixar o celular ligado um dia em que tenha uma emergência). Quando vira uma constante por pura má vontade, aí já não tem a menor condição. Rua!

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

A arte de irritar um músico profissional - introdução

"Pô bicho, sabe que que é?"

Quando essa frase sai da boca de um músico é porque lá vem desculpa esfarrapada. Aliás, músicos são um dos únicos seres na face da Terra que ainda referem a alguém falando "bicho", essa gíria tão vintage, também muito usada deslocando a sílaba tônica ("bichô").Por mais que muitos ainda não acreditem, ser músico é um trabalho que, para ser bem feito, exige responsabilidade. Muitas pessoas encaram como uma atividade secundária - e não há nenhum problema nisso desde que haja comprometimento. A partir do momento que alguém toma a decisão de apresentar sua música, passa a ter algumas obrigações que precisam ser cumpridas. Isso exige uma postura profissional, independente de a música ser ou não a principal fonte de renda.

Em todas as áreas existem bons e maus profissionais e, na música, a maioria dos maus profissionais peca não por não dominar sua arte, mas pela displicência com que encaram seu ofício. Chega a doer quando você se empenha em um trabalho, dedica seu tempo, sua energia e, principalmente, sua carga emocional para ouvir alguém da banda chegar ao estúdio no dia do ensaio e dizer:



- Pô bichô, sabe que que é? Eu esqueci quais eram as músicas que a gente combinou de tirar pra hoje! Que que a gente tinha combinado de ensaiar mesmo?

Tem coisas que podem ser relevadas uma vez ou outra. Mas, quando vira uma constante, passa a ser um problema sério.


Nessa terapêutica série, o Blog do Barzinho traz, passo a passo, a arte de irritar um músico profissional. Veremos como o "pô bichô, sabe que que é?" e seus complementos estraga bandas, faz muita gente perder o emprego e muitos músicos sérios perderem a cabeça.


sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Chique

Proposta simplesmente irrecusável. Nunca tinha visto tanto dinheiro por uma apresentação.

Levaria seu equipamento, montaria tudo com calma, faria seus intervalos e tocaria na inaguração daquela butique chiquérrima por algumas horas.

Uma chuva torrencial castigava São Paulo (e São Paulo com chuva é um desânimo só). Chegou na hora marcada, decidiu, junto com o gerente, onde ficar ("próximo à parte dos biquínis ou perto da cafeteria?"), mudou de lugar depois de montar tudo ("perto da cafeteria é melhor") e estava morrendo de medo de que uma rajada de vento mais forte trouxesse consigo um pé-d'água e molhasse suas caixas de som... mas a chuva parecia ter estabilizado naquela garoazinha pentelha que só serve pra estragar a chapinha.

Falando em chapinha, todas as mulheres que passaram por lá fizeram uso dela - e, claro, todas chegaram cobrindo os cabelos de alguma forma. Não eram muitas: a chuva e o trânsito, de fato, esfriaram a inauguração.

O tempo parecia parado. Nenhum aplauso, poucos olhares, pouquíssima empolgação. Mulheres passando, de vez em quando, experimentando sapatos, jóias e casacos. Um pedido de música: "Como nossos pais". Cantou muitíssimo bem e recebeu meia dúzia de palmas.

As entradas passaram se arrastando. Sabia que não poderia competir com brincos de diamante e casacos exclusivos. Parecia invisível, era uma máquina de som ambiente e nada mais. Por incrível que pareça, isso é muito mais cansativo do que um show em que o músico se empolga e dança sem parar. Mais cansaço e muito menos prazer.

No fim da tarde, recebeu sua excelente paga. Sorriu com o cantinho da boca. Ouviu elogios do dos donos e das vendedoras... e aí sorriu de verdade.

Um músico não pode viver nem só grana, nem só de aplauso. Quando falta um dos dois, tem algo errado.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Cigarro

Este é um post direcionado exclusivamente para dizer: Por favor,




Queridos fumantes,

ninguém aqui vai ficar fazendo sermão sobre os malefícios do cigarro e toda essa ladainha que vocês, com certeza, já estão cansados de saber. Também sei que é bom fumar um cigarrinho enquanto bebe uma cerva geladinha. Vocês têm todo o direito de curtir isso (e pagam pra isso), mas, POR FAVOR, fumem LONGE do cantor.

Não digo apenas em meu nome: tenho vários conhecidos e amigos cantores sentem os efeitos nocivos da fumaça do cigarro interferindo no seu trabalho, pois a respiração fica mais curta, o que faz com que a prega vocal faça um esforço excessivo, danificando-a a médio prazo. conheço até alguns cantores fumantes que não gostam da intereferência do cigarro na hora do show - a maioria só vai acender o primeiro do dia depois da apresentação. Atrapalha muito MESMO.

Eu parei de fumar há 8 anos, quando o otorrinolaringologista foi franco: "Ou você pára de cantar ou pára de fumar. Os dois juntos não dá porque a fisiologia da sua prega vocal não tem a menor resistência pra isso". Valeu a pena e eu recomendo, mas, se você não está interessado em parar, use seu bom-senso - que é muito mais eficaz do que qualquer lei proibitiva. Se você estiver muito próximo ao palco, afaste-se um pouco, procure um lugar mais ventilado - ou, pelo menos, tenha a bondade de jogar a fumaça para o lado OPOSTO. Não custa nada para você e ajuda MUITO o cantor.

Deveria ter feito esse post antes de estar com cordite (inflamação na corda vocal) e de desenvolver um nódulo nas pregas vocais! Dá-lhe fonoterapia...

Nos próximos posts, dicas de aquecimentos. Músico geralmente é meio preguiçoso pra isso e está erradíssimo.

domingo, 29 de junho de 2008

Cantor ou vocalista?

Acabo de abrir o site do Multishow pra ver quem são os indicados e eis que, quando o abro o link "melhor cantor", deparo-me com essa lista:

- Caetano Veloso
- Chorão (Charlie Brown Jr.)
- Di Ferrero (Nx Zero)
- Dinho Ouro Preto (Capital Inicial)
- Samuel Rosa (Skank)

Pára o mundo que eu quero descer! Já! Agora! Nesse minuto!




Onde está a indicação do ÚNICO cantor acima da média em atividade na mídia do Brasil, o Ney Matogrosso?????????

Num país em que já tivemos Tim Maia, Orlando Silva, Francisco Alves, Cauby Peixoto e Nelson Gonçalves ter que engolir Dinho Ouro Preto, Di Ferrero e Chorão é baixar o nível demais! Se o Caetano tem algum ponto forte, certamente, não é a voz (mesmo porque ninguém agüenta mais ouvir o Caetano falar). E o Samuel Rosa é um ótimo vocalista. Mas não cantor.

Acreditem em mim: vocalista e cantor não são sinônimos. Vocalista é o cara que, por força das circunstâncias, acaba sendo o porta-voz de uma banda ou de suas próprias composições. Ou porque outros intérpretes não se interessaram, ou para trabalhar melhor a imagem e deixá-la mais comercial, ou por fazer questão de expressar suas idéias, seus sentimentos, enfim, milhões de razões são possíveis e até justificáveis para que alguém com vontade, carisma e um pouco de voz assuma o microfone. Sim, o vocalista é perfeitamente capaz de transmitir uma emoção e passar sua mensagem, mas, pra ser um cantor, é preciso mais.

Cantor estuda canto. Cantor é afinado. Cantor tem boa dicção. Cantor tem um timbre belo. Cantor não está em cima do palco abrindo a boca por força das circunstâncias. Cantor tem força artística, tem um quê de magia arrebatadora e inexplicável que atinge, com sua voz, o consciente, o subconsciente e te faz parar, escutar e se deleitar.

Um dos raros exemplos de vocalista que, ao mesmo tempo, era um magnífico cantor, era o Freddie Mercury. Já, por exemplo, o Bono Vox é um grande vocalista - mas não é um cantor. Milton Nascimento é um cantor que compõe. Caetano Veloso, Tom Zé, Lulu Santos, Pepeu Gomes, João Bosco, Arnaldo Antunes, Nando Reis e quejandos são compositores que cantam. Elis Regina foi a maior cantora de todos os tempos. Paula Toller é uma mera vocalista. Amy Winehouse é uma cantora. Madonna é uma performer (outro departamento) e Britney Spears é uma marionete (departamento cada vez mais lotado).

Não existe problema nenhum em ser vocalista. O problema é a confusão dos méritos. Talvez seja uma bobagem pra alguns, mas eu não acho.

Menos mal que o Pedro Mariano não foi indicado! A Maria Rita pelo menos não é picareta.




segunda-feira, 26 de maio de 2008

A epopéia do cachê

- Podem ficar sossegados que, antes do feriado, o dinheiro estará na conta de vocês!
E não é que tinha sido um showzaço? Tudo bem público da casa foi 100 % levado pela banda (ou seja, nenhum cliente da casa) e, embora tivessem dito para os músicos levarem o equipamento completo, a banda deparou-se, misteriosamente, com várias e várias caixas de som.

- Ué! Mas vocês não disseram que a casa não tinha equipamento nenhum?
- Essas caixas de som não são pros músicos das bandas usarem, não! - respondeu secamente um dos barmans.
(Bom... vai que os cupins querem fazer uma rave quando não tem ninguém olhando né? Afinal, pra que mais serviria uma caixa de som se não for para os músicos usarem?)

Menos mal que, após uma leve insistência, conseguiu-se que a água não fosse descontada da comanda do músico. Mas, parodiando Paula Toller na música que encerrou o show em total apoteose, deixando as contas, no fim das contas o que interessou foi o sucesso absoluto da apresentação.



O show tinha acontecido no sábado e o feriado seria na quinta. Nenhum problema para nós: no mais tardar até quarta já estaríamos com mais uma graninha (mixuruca, porém sempre bem-vinda) na conta pra curtir o feriadão mais tranqüilamente. Em três dias úteis daria e sobraria tempo para efetuar o depósito.

Segunda: nada. Terça: nada. Quarta: nada.
E o feriado ficou um pouquinho mais azedo para os integrantes da banda.

No dia seguinte ao feriado, a ligação do dono do bar para o baixista:

- Putz, cara, mil perdões! Ficamos com uns problemas aqui e não deu tempo de eu fazer o depósito de vocês! Segunda-feira sem falta eu deposito, ok?
Ok, né? Fazer o que...
Segunda: nada. Terça: nada.

Quarta-feira, após várias tentativas, localizamos o dono da casa. Mais desculpas e mais uma promessa:

- Quinta-feira sem falta!

Quinta: nada. Sexta: nada.

Mais uma proposta por telefone:

- Vocês querem passar aqui pra pegar o dinheiro sexta ou sábado, na hora em que a casa fechar (ou seja, depois das 5:00) ou esperar para que eu deposite segunda sem falta?

Claro que ninguém, em sã consciência, vai sair de sua casa numa sexta ou sábado às cinco da matina para pegar receber um cachê, não? Mas aquilo já tinha ido longe demais...

Sábado, 4:00: a vocalista, e o guitarrista estavam na estrada para São Paulo, depois de um show em um barzinho de outra cidade.

Sábado, 5:00: vocalista e guitarrista passam na casa do baterista. Seguem todos no mesmo carro rumo ao estabelecimento do caloteiro.

Sábado, 5:30: a vocalista desce do carro e pergunta com toda a educação e um doce sorriso nos lábios para o segurança:

- Por favor, o senhor Fulano está?

- Está sim. Está la em cima no escritório.

- Então... eu preciso falar com ele a respeito do cachê da banda que tocou aqui há duas semanas...

- Desculpe, eu me enganei. Ele não está.

Aí o bicho pegou...


Ameça daqui, xinga de lá, clientes sem entender nada. Se não fosse por bem, seria por mal, pois os músicos já haviam checado que não havia outra saída na casa e, uma hora, o caloteiro ia passar por ali.

Sábado, 6:15: Os músicos conferem nota por nota do dinheiro e assinam o recibo.

Fim da epopéia.


Epílogo: na terça seguinte, ao passar em frente ao bar, um integrante da banda viu uma enorme placa de "Vende-se". Se tivesse deixado para "segunda-feira, sem falta!", a banda não teria visto a cor da grana...

domingo, 9 de março de 2008

Nada

Mais um fim de semana sem guardanapos e sem dinheiro.

Vai indo bem mal a coisa no barzinho...

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

O "X-Músico"


Muitos barzinhos têm equipamento bacaninha de som, uma paga razoável, um público legal, um ambiente agradável... mas acabam pecando em uma coisa: a consumação do músico. Há lugares em que até a água é descontada do cachê.

É óbvio e ululante que ninguém espera que um dono de casa forneça uísques caríssimos, incontáveis caipirinhas e postas de caviar para os músicos. Não é isso. E também é óbvio que tem músico folgado que, se bobear, deixa um tremendo prejuízo na casa com sua consumação. A questão é equilibrar os extremos.

Em muitas casas, acontece de o dono dar uma consumação de, por exemplo, R$ 15,00, sendo que o prato mais barato (e mais chifrim) é R$14,90. Em outros lugares, nem isso: o pessoal da cozinha acaba fazendo um pão com manteiga ou com mortadela - lanche que um grande amigo meu apelidou de "X-Músico". E olhe lá.

Pode não parecer, mas a atividade musical também é um esforço físico. No caso do instrumentista, é um caso mais óbvio: é só olhar um baterista que qualquer um sabe o tamanho do esforço físico envolvido. O canto também é uma atividade que envolve um intenso trabalho do organismo: aparelho respiratório, músculos da face e da boca são exigidos num nível alto. Isso consome calorias, acreditem! E quando é um bar mais animado, em que o cantor também interage bastante com o público, dançando, colocando o pessoal pra pular, o esforço é indiscutível.
Muitas vezes, há que se chegar cedo no bar para montar o equipamento e passar o som - e quem mora em cidades com trânsito (como São Paulo) tem que sair mais cedo ainda. Por mais que nos alimentemos em casa, quando o show termina, a fome bate.
Água e um consumo razoável - sem desperdício nem muquiranagem - não dão prejuízo, vai. Regular comida é feio. Muito feio.









terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Atitudes - por Rafael Puime

"Ele estava sentado em frente ao balcão, uma garrafa de cerveja na mão, um cigarro nos lábios, e perdido entre seus milhares de pensamentos. Não era isso que ele tinha em mente quando resolveu investir na sua carreira de músico. Um bar cheio de bêbados que mal ligavam pro que ele tocava ou deixava de tocar não era bem o lugar em que ele imaginava que estaria quando se lançou em sua aventura musical.E era justamente quando ele parava com o "show" e ia pro balcão, que ele se perguntava se era isso mesmo que ele queria. Tocar músicas que pouco o agradavam, somente para cumprir ordens, gastar seu vasto talento tentando entreter um bando de idiotas que nunca dariam valor ao seu trabalho. Era isso que ele queria de verdade?

Tudo bem, as noites as vezes rendiam algo a mais pra ele. De vez em quando, alguma garota assistia ele tocando e vinha falar com ele. Quando isso acontecia, era quase certo que no final da noite eles estariam transando em algum quarto por aí. Mas nunca passava disso, e na manhã do dia seguinte, as únicas companhias que lhe restavam era seu violão e seus cigarros. O garçom avisou que estava na hora de voltar a tocar. Ele apagou seu cigarro, bebeu de um gole só toda sua cerveja, e se dirigiu ao palco, pensando em qual música idiota ele teria que tocar agora. Ele odiava tocar essas músicas, mas o dinheiro no final do mês era o suficiente pra bancar as despesas, então ele suprimia seu desejo de tocar suas próprias canções em prol da garantia do emprego.Mas ele estava cansado disso tudo. E ele decidira a pouco que esta noite seria diferente. Pouco importava se ele perderia seu emprego, pouco importava se ele ouviria reclamações idiotas de seu patrão. Nesta noite, ele faria o que ele gosta.

Sentou no banco, pôs seu violão no colo e olhou pra "platéia". Como sempre, ninguém prestava atenção nele. Isso lhe deu coragem necessária pra tocar o primeiro acorde. E o segundo. E o terceiro. E numa seqüência perfeita de melodias, aproximou sua boca do microfone e cantarolou as primeiras palavras de uma de suas belas composições.Seu chefe lançou-lhe um olhar fulminante por tocar algo diferente do combinado. Mas ele não ligou pra isso e continuou com sua música. Nada mais importava naquele momento. Ele estava finalmente, fazendo o que gostava.Terminou o show daquela noite com uma rara satisfação. Nem mesmo os gritos e xingamentos que recebera de seu patrão puderam estragar o que ele sentia naquele momento. E as coisas ficaram ainda melhores quando uma bela garota se aproximou dele, elogiando aquela música que ele tocou quando voltou ao palco. A noite hoje prometia..."


Rafael Puime vive em Juiz de Fora, é músico por hobby e conhece bem o universo do barzinho. Obrigada por ceder a belíssima crônica para o Blog do Barzinho. Leia mais trabalhos dele no blog Carpe Diem (www.rafaelpuime.blogspot.com)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Às vezes não dá...2

No post anterior, vimos que, às vezes, o músico fica numa saia justa por não saber alguma música pedida pelo público. Acompanhem a situação em que esse amigo do meu amigo acabou se envolvendo.

Vamos à reconstituição em guardanapos da história que aconteceu esse amigo do meu amigo... praticamente um "Linha Direta" blogueiro, pois os bilhetinhos originais foram jogados com muito gosto na lata do lixo.


Estava esse amigo de um amigo meu fazendo o seu som em uma casa em que ele nunca tinha tocado antes. Tudo estava correndo normalmente, até que chega-lhe às mãos o seguinte pedido:





O amigo do meu amigo, educadamente, pediu desculpas no microfone


- Sinto muito... essa eu vou ficar devendo. A pessoa que pediu essa, por favor, peça outra que eu vou tentar!


Uns poucos minutinhos depois, veio um outro guardanapo com os seguintes dizeres:




O músico respirou fundo, engoliu o sapo-boi e combateu o nervosismo com profissionalismo. Levou o show normalmente (o show não pode parar!) e, quando tudo parecia bem, mais uma "delicadeza":







Como fizemos a reconstituição a la "Linha Direta", não poderia faltar o depoimento!


"Juro que fiquei muito, mas muito p... da vida. Mas a casa era nova pra mim e já era fixa, eu estava fazendo um bom trabalho (tanto que toco até hoje por lá). Não seria legal bater boca com um cliente. Acontece que, ao não bater boca, a coisa te remoe!!! Eu, de madrugada, já deitado pensando: 'Caramba, meu repertório tá com mais de 200 músicas. Canto de tudo e o cara me xinga por causa de uma música da Zizi Possi!!'. Viro para outro lado e penso de novo: 'Caramba, já acompanhei vários cantores nesta cidade!! Mais velhos e mais experientes que eu!! Não me lembro de ter tocado uma vez só Asa Morena com ninguém!!! Nunca. jamais!!!'. Viro de novo!!!Sentei na cama e tive o último pensamento que finalmente me trouxe a paz: 'Em homenagem aquele gentil senhor, decido o seguinte: JAMAIS EM MINHA VIDA, POR MOTIVO NENHUM, NEM QUE ME PAGUEM TOCAREI ASA MORENA!!!!A Zizi Possi, (que canta muito) há de me perdoar!!!!!'. Dormi legal."


É, minha gente... uns agüentam desaforo do chefe... músico recebe-os via guardanapo...






PS: Essa é uma das histórias que o Edy, músico de São José dos Campos, cantor, baixista e violonista tem pra contar! Mande a sua para nós também! E muito obrigada, Édy! Espero que a criatura da "Asa Morena" tenha voado pra bem longe com seus desaforos! Sucesso pra você!

domingo, 20 de janeiro de 2008

Às vezes não dá... 1

No primeiro post do marcador "Toca Raul", eu falei sobre a alegria de tocar uma canção que agrade a todos... mesmo quando a gente já não agüenta mais interpretá-la.

Em contrapartida, há momentos de decepção quando não sabemos o pedido de música que vem, caprichosamente, escrita no guardanapo.



"Cantora, estamos aqui por causa da sua música, porque a grana tá curta, mas vale a pena. Sorte pra você na sua vida. Se der, a última: A lua que eu te dei - Ivete Sangalo. Beijos, Guilherme e Antônia"

Tem uns que, pra ajudar, colocam um trechinho da música como esse aqui:




"Parabéns, seu repertório é muito bom MARAVILHOSO. Por favor, toque essa música que não sabemos o nome: Marisa Monte - e no meio de tanta gente eu encontrei você, entre tanta gente chata sem nenhuma graça"

Mas tem horas que não dá...

A gente fica sem graça, pede desculpas, oferecemos outra música do mesmo cantor, procuramos um jeitinho de não decepcionar. Na maioria das vezes, tudo se resolve bem. Mas um amigo de um amigo meu passou por um aperto lascado por causa dos famosos pedidos no guardanapo...



Veremos no post acima!

sábado, 5 de janeiro de 2008

Férias?

Sim, eu tentei! Já que passaria quase uma semana na praia (a contragosto), achei que seria um tempo de férias totais do barzinho. Férias são bem-vindas e, muitas vezes, mais uma questão de necessidade do que luxo. Dando um tempo no repertório e na rotina, na volta, a gente acaba retornando com mais pique e até com uma certa saudade do que, antes, parecia que tinha virado tortura. Estava eu, então, lendo tranqüilamente e estava começando a bater aquele soninho gostoso quando escuto uma voz masculina, acompanhando-se ao violão (a todo volume) cantando:

- E eu não sei paraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaar de te olhaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaar... não sei paraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaar... de te olhar...



Mesmo tendo certeza do que iria ver quando abrisse a janela, não queria acreditar. Mas fui certificar-me da origem daquele som tão absurdamente familiar do qual eu não queria chegar perto naquela semana:

- Eu mereço! Abriu um barzinho na esquina!

Ouvi um "toca Raul!" ainda sóbrio. Eram cerca de nove da noite. O som seguiu com uma boa qualidade (o músico era muito bom) e um volume altíssimo até cerca de duas e meia, três da manhã. Trabalho puxado, com poucos e curtos intervalos. Acabei ouvindo o show inteiro (não dava pra não ouvir) e só não gostei de uma seqüência meio bizarra de "Volare" com "Praieiro" (!!!!). Também tentei tapar os ouvidos a todo custo quando começou uma seqüência de Ira!, mas aí a culpa não foi, de modo algum, do músico - eu é que detesto essa banda. Principalmente a música do "um metro e sessenta e cinco de sol". Existem formas bem mais inteligentes de homenagear uma mulher baixinha a quem se ama... mas isso não vem ao caso.

No dia seguinte, conversei com a dona do lugar, perguntando se não dava pra abaixar um pouquinho o volume do som. Bastante solícita, ela me contou que, muitas vezes, ficava no pé do músico pedindo pra abaixar e, quando virava as costas, o cara sentava o dedo no botão de volume. Sei que ela não mentiu - ou por falta de retorno adequado, ou por pura teimosia, o pessoal faz isso mesmo. Soube, também, que a paga era por entrada (em outras palavras, uma merreca, pois o bar era pequeno). Muita gente aproveitava para sentar-se no quiosque em frente, tomando uma cervejinha mais barata e curtindo o som do mesmo jeito - e vi alguns até pedindo músicas! Ou seja: o público pagante era só uma pequena parcela do público total pois, querendo ou não, além do pessoal do calçadão, no mínimo dois prédios (entre eles, onde eu estava) ouviam perfeitamente tudo o que era executado. E, como todos sabem, no fim/ começo de ano, a praia é um lugar bastante lotado.

Depois das três, com um relativo silêncio quebrado freqüentemente por criaturas ouvindo funk carioca no último volume em seus carros, conseguia pegar no sono. Caramba! Meu trabalho me persegue!

PS: Esse macaquinho é tudoooooooo!!! Diz aí!!!




terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Quando a culpa também é do músico

Não adianta dizer que todos os contratantes são monstros aproveitadores e sem coração e que todos os músicos são profissionais que cumprem exatamente com todas as suas obrigações. A balança pesa para os dois lados e, se existe quem contrate músicos sem nos uma condição legal de trabalho, existem também um sem-número de (maus) profissionais da música que não fazem por merecer.


Mancadas de todo tipo estão no repertório: atrasos, intervalos muito maiores do que o necessário, abuso na cerveja na hora do trampo, chegar sem os equipamentos necessários para o show, indelicadezas com os clientes, furto de equipamentos... etc. Colocando-se no lugar do dono do estabelecimento, como não adotar medidas de restrição às liberdades do músico dentro do local depois de ver que uns dois ou três roubaram o seu pedestal de microfone? Como não colocar um limite na comanda depois que uns três ou quatro gastaram mais de cem reais em uísque, caipirinha, etc.? Continua sendo um erro a generalização de que todo músico é assim, mas em muitas vezes a gota d'água dessa relação de desconfiança é derramada por músicos pilantras (e não são poucos).


Mas a principal mancada ocorre cada vez que um músico desvaloriza o seu trabalho para ganhar uma gig... muitas vezes passado a perna em outro colega.


Em termos comerciais, nada mais é do que lei do mercado: existe uma concorrência e vence aquele que vender a mercadoria pelo menor preço. Também não existe, teoricamente, nada de ilegal nessa prática. Mas não é o fato de não ser ilegal que torna uma prática justa e, com o passar do tempo, esta lógica da "feira-livre" foi um dos fatores-chave que levaram à queda do padrão de cachês e estruturas.


Há muita coisa para se repensar no barzinho...







terça-feira, 27 de novembro de 2007

Couvert artístico ou esmola?

Pois é, muitos de nós, músicos, acabamos tendo que nos sujeitar a trabalhar na base do raio do "couvert artístico". Definição teórica:

"Couvert artístico é a taxa pré-estabelecida que o cliente paga pela música ao vivo e que é repassada integral ou parcialmente ao músico, dependendo do acordo feito com o dono do bar."

Posto isso, vamos aos fatos:

O fato de ter sua paga atrelada diretamente à quantidade de pessoas dentro do bar, automaticamente, joga para o músico a responsabilidade de levar clientes para o lugar. Ora, a função do músico é de entreter o público enquanto este estiver no estabelecimento. A função de divulgar a casa deve caber aos donos ou gerentes. Músico não é acessor de imprensa, pombas!

Aconteceu de um amigo de um amigo meu ter um trabalho marcado no dia do último capítulo da novela das 8. Cinco gatos-pingados no bar pra ouvir o show (sim, porque os olhos estavam grudados no telão). Saldo da noite: dez reais. Também já aconteceu de uma amiga de um amigo meu ter um show marcado no dia mais frio do ano. Três almas caridosas no bar, totalizando heróicos seis reais.

Moral da história: o trabalho vira uma grande loteria e não uma atividade segura. Como depender disso pra viver?

Claro que existem os casos de músicos que tiram mais de duzentinhos por noite, mas tenho certeza de que, o dia em que isso for mais regra que exceção, esse esquema de couvert se vai para no más volver. E digo mais: 99,99% dos músicos que eu conheço (e eu me incluo nessa porcentagem) trocariam de muito bom grado a loteria do couvert pela segurança de uma paga razoável e constante.

Pra matar o assunto:

Um amigo de um amigo meu (não o mesmo da novela) propôs ao dono da casa:

- Que tal se, ao invés de o senhor me pagar por couvert, não acertássemos um fixo?
- Mas o couvert acaba dando mais grana que um fixo! Vai ser melhor pra você! A casa bomba!
- É mesmo? Então o porque o senhor não acerta um fixo comigo e fica com o couvert para a casa?
- Ah, mas aí pra mim não compensa... vai que a casa não enche...

Contra fatos, não há argumentos. Couvert é uma esmola de nome chique que tem muito mais cara de "exploração" que de "parceria".





Desce mais um chope escuro.