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segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Seresta do recomeço




Não havia mais razão para a seresta. Na janela, não mais Beatriz mandava seus beijos. Os olhos da musa não mais brilhavam. A saudade lancinava-lhe o peito e impunha-lhe um impiedoso nó na garganta.

Foram 54 anos de amor e quatro filhos criados; ou, como ele prefere dizer, "mais de meio século de namoro e quatro frutos desse amor". Lamentou o fato de três, dos quatro filhos, terem desmanchado seus primeiros casamentos. Mostrou Beatriz em sua juventude - belíssima - guardada em preto e branco na carteira. Mostrou um bilhete escrito em letras miúdas e caprichadas:

- Os cabelos embranquecem e nosso amor nunca envelhece. De sua eterna namorada.

Lágrimas.
Mas acreditava no céu e Beatriz estava lá, muito bem aconchegada. Ela, certamente, continuava a ouvi-lo... e mais certamente ainda não o queria triste. Era preciso cantar, mais que nunca era preciso cantar. Cantar para Beatriz, cantar para a vida, cantar a bênção e o privilégio de quem experimentou o verdadeiro amor infinito enquanto durou.

Então, aos 77 anos, uma ano e meio após a última seresta, ele subiu, glorioso, ao palco do barzinho, a convite de uma grande amiga. A voz inigualável um pouco trêmula, mas ainda lindíssima, com a potência e magia que só a voz dos seresteiros legítimos carregam.


- Esses moços, pobres moços... ah, se soubessem o que eu sei!

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Nossa canção

No intervalo, a cantora encontrou um casal de velhinhos:


- Meus parabéns! Que voz linda você tem! Que grande prazer ouvir você cantar!

- E eu adorei o seu repertório!

- Muito obrigada! Puxa, muito obrigada mesmo!

- Eu e minha esposa freqüentamos bastante esta cervejaria, mas é a primeira vez que vejo você aqui...

- E, realmente, é a primeira vez que toco aqui!

- Então, seja bem-vinda! Você estará aqui semana que vem?

- Espero que sim!


Nisso, a senhora pediu licença, pois precisava ir ao banheiro. Aproveitando o momento, o senhor dirigiu-se à cantora:


- Posso fazer um pedido de música?

- Claro! O que o senhor quiser!

- Quero fazer uma surpresa para minha esposa semana que vem... pois faremos 35 anos de casamento!

- Meus parabéns, que lindo isso!

- Obrigado! Mas então, eu gostaria de dedicar a ela a canção que estava tocando quando eu me enchi de coragem e a pedi em casamento. É "Nossa Canção", do Roberto Carlos, você conhece?

- Não, mas prometo que vou pesquisar e...

- Opa, ela está voltando...


E a cantora também tinha que voltar para a segunda entrada.


Raramente acontecia de alguém que pedia uma música para a próxima semana voltar para o barzinho, mas o pedido foi tão especial que, pelo sim, pelo não, resolveu tirar a música.


E fez muito bem de seguir sua intuição pois, na semana seguinte, lá estava o casal.

Uma piscadela cúmplice para o maridão apaixonado já deu a entender que estava tudo certo. E, quando a cantora recebeu o sinal, começou a cantar: "Olha aqui, preste atenção, esta é a nossa canção...".


A esposa arregalou os olhos. O marido, apaixonado, segurou a mão dela e cantou a música toda olhando nos olhos dela. Ela chorou de emoção. A cantora também...


sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Luluzinhas da terceira idade

Uma amiga de um amigo meu tocava regularmente em uma rede de cervejarias dos shoppings de São Paulo. Um local ideal para sentar e conversar, sem maiores exaltações - no máximo, um pessoal um pouquinho mais "alto" que emendara o happy hour com a galera e dava umas risadas mais efusivas - no mais, um ambiente totalmente discreto. No caso desta filial em que se passa a história, a parede de vidro da cervejaria ficava de frente para a fila do cinema e, como era sábado, tanto a cervejaria quanto a fila do cinema estavam cheias.

Quando a cantora voltou para a segunda entrada, foi abordada por uma adolescente que a parabenizou e pediu-lhe para tocar "Diana", pois já havia gostado bastante da outra seleção de anos 60 da primeira entrada. E a cantora disse-lhe que seria a primeira música da próxima entrada.

Corta para a mesa perto da porta.
Um grupo de cinco velhinhas.
Super animadas.
Tomando todas.

Eu disse... TODAS.


Volta para o começo da segunda entrada.

Conforme a cantora havia prometido para a garota, tudo recomeçou com "Não te esqueças meu amor/ que quem mais te amou fui eu". E eis que aconteceu.

O Clube da Luluzinha da terceira idade, com umas 7 canecas de chopp na cabeça cada uma, arrastou a mesa, afastou as cadeiras ... e começou a dançar twist no meio da cervejaria! E foi um tal de tiazinha bater com a bunda na cabeça de quem estava sentado na cadeira de trás, foi um tal de derrubar cerveja no chão e de cantar o mais alto que o gogó agüentasse: "Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa caaaaaaaaaaaaaaaaantaaaaaaaaaaaaaaaaaaar o amooooooooooooooooooooooooor/ Diaaaaaaaaaaaana"!!!!!

No meio dessa turma havia uma velhinha japonesa, dessas bem pequenininhas, de cabelo curtinho, chapeuzinho e óculos enormes (todo mundo já viu uma velhinha japonesa assim!) e última cena que você imagina uma senhorinha dessas fazendo é cantar rock, vermelha que nem um peru (e bêbada que nem um gambá), levantando um canecão de chopp e abraçando a amiga do lado. A cantora quase entrou em colapso na sacadinha onde era o palco: pois, ao mesmo tempo que aquilo era O MÁXIMO, tinha gente olhando torto - inclusive o gerente. Quando terminou a música, antes que ela pudesse pensar em trocar de estilo, uma das "meninas", impedindo a fuga da dentadura com o dedo, não teve dúvidas em gritar:

- ANOS XEXEEEEEEEEEENTAAAAAAA!!!!

Não teve como fugir: "Banho de lua" para a galera! Ao fim da introdução, a tiazinha japonesa tirou um garçom desprevinido para dançar. A turminha da moça que pediu "Diana" quase se juntou, mas viu a cara feia do gerente que sinalizou para a cantora na sacadinha: acalma esse povo!!!!!!

E, depois do "Banho de lua", teve que rolar um "Bem que se quis" para as tias sossegaram o facho... e aí elas se comportaram o resto da noite.

Eu só falo uma coisa: eu quero mais é chegar nessa idade indo pra balada com minhas amigas e gritando para o músico:

- ANOS OITENTAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!!