
Não havia mais razão para a seresta. Na janela, não mais Beatriz mandava seus beijos. Os olhos da musa não mais brilhavam. A saudade lancinava-lhe o peito e impunha-lhe um impiedoso nó na garganta.
Foram 54 anos de amor e quatro filhos criados; ou, como ele prefere dizer, "mais de meio século de namoro e quatro frutos desse amor". Lamentou o fato de três, dos quatro filhos, terem desmanchado seus primeiros casamentos. Mostrou Beatriz em sua juventude - belíssima - guardada em preto e branco na carteira. Mostrou um bilhete escrito em letras miúdas e caprichadas:
- Os cabelos embranquecem e nosso amor nunca envelhece. De sua eterna namorada.
Lágrimas.
Mas acreditava no céu e Beatriz estava lá, muito bem aconchegada. Ela, certamente, continuava a ouvi-lo... e mais certamente ainda não o queria triste. Era preciso cantar, mais que nunca era preciso cantar. Cantar para Beatriz, cantar para a vida, cantar a bênção e o privilégio de quem experimentou o verdadeiro amor infinito enquanto durou.
Então, aos 77 anos, uma ano e meio após a última seresta, ele subiu, glorioso, ao palco do barzinho, a convite de uma grande amiga. A voz inigualável um pouco trêmula, mas ainda lindíssima, com a potência e magia que só a voz dos seresteiros legítimos carregam.
- Esses moços, pobres moços... ah, se soubessem o que eu sei!



