quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Kit de sobrevivência no barzinho

Há um tempinho, um leitor do Barzinho pediu umas dicas para começar a carreira de músico. Transcrevo aqui o mail que mandei pra ele. Espero que possa ser útil para mais pessoas e, claro, todos vocês que quiserem complementar as informações, já sabem: mande sua opinião nos comentários!


"Yo sobrevivo en los barzitos!"


"O mercado dos barzinhos não anda muito agradável: depois que teve esse lance da lei seca o movimento diminuiu, o lucro dos bares diminuiu e os primeiros que se ferraram foram os músicos. Temos também vários problemas com pagamento e estrutura, mas isso tudo pode ser
minimizado com algumas medidas.

- Em primeiro lugar, faça um levantamento dos bares de sua região que têm música ao vivo - e saiba quem é a pessoa responsável pela contratação do músico.



Depois, grave um CDemo simples, porém, caprichado, com 6 músicas no máximo e escreva um breve release seu (quando você começou a tocar, quem foram seus professores, suas influências, etc.). Deixe esse "kit" nos barzinhos.

Quanto ao trampo:

- tente conhecer o máximo possível o público do bar. Se der, vá uma noite lá tomar uma cerva e observar a galera, o tipo de som que rola, etc.

- divulgue o melhor que puder. Encha o saco dos amigos e da parentada!

- procure formar um repertório bem eclético: desde o que tá tocando no rádio até umas "pérolas" que todo mundo gosta, mas pouca gente canta.

- cuide bem do seu equipamento: tenha um bom violão, cabos em bom estado, cordas relativamente novas, etc. Isso tudo, além de melhorar o som, sempre dá uma impressão melhor.


E, mais importante que TUDO:

- vão existir noites em que tudo vai ser perfeito...
... outras em que tudo vai ser bizarro...


... outras que começam horríveis e terminam ótimas e vice-versa. Não deixe NUNCA sua auto-estima artística se abalar por causa de um dia ruim. Claro, quando eles acontecerem, sempre convém repassar o que aconteceu e, se possível, melhorar. Mas não se abale, isso é super normal.

- também vão existir noites em que o público vai cantar junto, dançar, se empolgar. Outras em que a porção de batatinhas disputa a atenção com você e ganha. Também não se abale com isso - é a cultura brasileira. Faça o seu melhor sempre, mas esteja ciente de que não é todo público que reconhece e aprecia isso.

- estude não só a técnica que cada música vai te exigir para ser bem executada: estude principalmente o que cada acorde, o que cada passagem diz no seu coração. Estude a letra, traduza-a, procure no dicionário palavras que você não conheça, estude sobre seu compositor,
seu intérprete, seu contexto histórico: absorva a música por inteiro, transforme-a em algo totalmente pleno de significado pra você. Sempre que você tocá-la, vai sentir de uma maneira muito mais intensa toda a emoção e, conseqüentemente, vai transmiti-la melhor e mais claramente. E, ainda por cima, mesmo quando ninguém no barzinho estiver prestando
atenção em você, a sua relação com a música que vc vai tocar será tão forte que acaba minimizando bastante esse "abandono".

- procure olhar nos olhos do público e transmitir tudo isso também com os seus olhos. Eles são espelhos da alma - ok, a frase é cafona, mas é muito importante que todo artista tenha consciência disso.


Quantos aos barzinhos:

- procure SEMPRE fechar um cachê fixo. Couvert sempre é furada: vc não tem como checar. Por mais que tente prestar atenção ao mesmo tempo no público que entra e no seu trabalho, uma hora algo dá errado, hehehe. Por mais que pareça atraente fechar couverts de sexta ou sábado, além você nunca ter certeza da grana de que vai dar, também você nunca pode ter certeza da grana a que você, realmente, tinha direito.



"Eu disse, Jack... couvert é furada, parceiro!"


- veja o cardápio antes de fechar uma consumação mínima pra você. Tem dono de bar que é muito filho da p... e quer te dar 10 contos de consumação... sendo que com isso vc não come nem um lanche vagabundo.

- cheque a aparelhagem de som do lugar e, se vc tiver que levar, aumente seu cachê.

- negocie estacionamento qdo for de carro para o lugar.

- estabeleça cachês por tempo de show (2h é tanto, 3h é tanto, etc.)


Desejo MUITO BOA SORTE a você!! E que, se esse é seu sonho, que você consiga realizá-lo da melhor forma possível! Sucesso, cara! Estarei na torcida!"

Lei 11.769: Educação Musical

Nunca pensei que alguma coisa vinda do Planalto Central iria me surpreender tão positivamente quanto essa lei! Muito menos se isso tivesse vindo de alguém com o sobrenome "Sarney" e sancionado por alguém com o sobrenome "Lula da Silva".


Mas eis que parece que nem tudo está perdido e, em agosto, aprovou-se a lei que dispõe sobre a obrigatoriedade do ensino musical em toda a educação básica (ou seja, do infantil até o ensino médio). Na LDB, que fala da obrigatoriedade da "Educação Artística" na grade curricular, não há uma especificidade quanto ao segmento de arte a ser abordado - e a maioria das escolas opta pelas artes plásticas (e algumas chamam "Trigonometria" de "Educação Artística"). A 11.769 inclui definitivamente o ensino musical na grade curricular. As escolas terão 3 anos para se adaptarem a esse novo parâmetro. A lei também não estipula um conteúdo obrigatório, nem uma carga horária mínima. Já era hora, porém, há algumas coisinhas a se analisar com mais atenção a fim de que só tenhamos motivos para comemorar o fato de essa lei entrar em vigor.



Três anos é o tempo médio de duração do curso de Licenciatura em Educação Artística (habilitação em Música). Creio que os vestibulares este ano já serão bem mais concorridos do que quando eu prestei (2001) - mas não necessariamente mais criterioso. Uma boa parte do conteúdo de pedagogia musical que nos é passado no curso é muito, mas MUITO ultrapassada - levando em consideração que nos últimos 5 anos a indústria musical virou do avesso numa velocidade assustadora. Claro que todos os métodos podem ser reciclados e sofrer várias adaptações, mas, no caso da música, é preciso que se faça isso com urgência: não dá pra ficar passando jograis pra uma molecada que domina tantas mídias! Sem essa reciclagem, corre-se o risco de o tiro sair pela culatra e tornar o estudo da música algo chatíssimo e sem propósito.







Enquanto essa mudança não ocorre, cabe a cada professor de música que vai encarar uma sala de aula conhecer bem o universo musical dos seus alunos e adequar o ensino a cada faixa etária. E, principalmente, conseguir cativar o aluno que não tem aptidão ou vontade de aprender música.




Se essa lei for, de fato, cumprida e tivermos essa reformulação no modo como se ensina música, creio que teremos, em breve, uma geração um pouco mais criteriosa na hora de montar sua playlist!





A propósito: hoje irei deixar curriculuns em mais 4 escolas. Modéstia a parte, elaborei um curso de educação musical voltado para o Ensino Médio que está um arraso! Se algum coordenador/ professor/ diretor/ inspetor/ aluno se interessar, por favor, me escreva no gigia.vincenzi@terra.com.br para mais informações!


E deixo minha homenagem a todos os professores através do Mestre Madruga

Gravata

Tá bom, tá bom, eu sei que é totalmente off topic, eu sei que não faz sentido nenhum ter esse questionamento nesse blog, mas eis que me bate a dúvida:
Por que causa, motivo, razão ou circunstância os músicos andam se apresentando de gravata?




A gravata, tradicionalmente, é um símbolo de trabalhos "burocráticos", coisas de escritório, "burguesia"... e eis que a maioria das bandas dessa década (principalmente os bateristas) se apresenta de tênis, calça, no mínimo, dois números maior do que o habitual pra cada um, camisa toda fuleira... e gravata!


Estilo? Moda? Tendência? Babaquice? O que vocês acham?


A Joaninha, do Bichinhos de Jardim também não entende essa moda.

sábado, 27 de setembro de 2008

Guardanapos acumulados

Faz tempo, né?
Então, sem mais delongas, vamos a eles:



Abrindo a série, um dos melhores de todos os tempos! "Eza gepa do Cazuza????? Que raio de música é essa???? Tá escrito de trás pra frente???? Que que é isso???". Aí, ao ler "Exagerado" no set list, liguei as coisas!!!! CENÇASSIONAU!!!


"1ª opção, A Barata, 2ª opção, Mamonas (menos Uma Arlinda Mulher)". Tipo assim... pagode no Canuck's é só aos domingos. Sexta-feira é pop rock, galera! Mas Mamonas tá garantidíssimo! Semana passada foi "Uma Arlinda Mulher" e, dessa vez, "Chopis Centis". Esse pessoal é bem legal! Senti falta deles nessa sexta!

Mea culpa. Dessa lista só foi One, do U2.

Aviões do Forró? Não, obrigada (mas valeu o cachinho de uvas desenhado!). Passemos ao Roberto Carlos, então! "Negro gato" pra vocês!

Opaaaaaaaaa!! Nirvana é especialidade da casa (embora a gente saiba que é uma regravação de um som do David Bowie, né?)


Mea culpa, mea culpa, mea culpa. Preciso tirar urgentemente essa música!

Hummmmm... essa música num mísero violãozinho é complicado. Mas que tal Patience? O Renato, fãzaço do Guns, gostou também!

"More than words para uma amiga apaixonada". Ah, que fofos!


Qualquer uma do Doors? Love me 2 times!


Tempos modernos. Que música linda! Foi meio chutada, não me lembrava dela muito bem. Mas valeu!

Outra música que eu preciso tirar com urgência: Cássa Eller, Luz dos Olhos...


"Eu vou roubar essa mulher pra mim - Charle Brau". Seria "Proibida pra mim", do Charlie Brown? Sim! O Nelson me ajudou a lembrar a primeira estrofe e tirei os acordes na hora! Boa música pra cantar no barzinho. Todo mundo cantou junto!

Até os próximos guardanapos!

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Voltando... de novo


Como vocês já devem estar acostumados, eu, vergonhosamente, peço desculpas por ter largado o blog ao deus-dará... e, mais uma vez, voltamos e tentaremos manter um rítmo minimamente regular de postagens, fazendo o blog renascer das cinzas mais uma vez.

Tentando justificar o injustificável, dois fatores contribuíram bastante para que eu deixasse o blog de lado: a pré-produção do Cinco Minutos de Fama, os ensaios e apresentações do Forcloreano.
Oportunidade de fazer ARTE, coisa que, infelizmente, nem sempre conseguimos no barzinho. Som de barzinho é entretenimento, ganha-pão, farra, diversão. Isso não deixa de ter sua importância. Mas tem horas que é necessário mais para a gente ser feliz como artista.
Então, não vou - nem posso - fechar as portas para os barzinhos. Mas a tendência é um afastamento gradual, por uma necessidade cada vez mais urgente de fazer Arte.
Muito obrigada a todos vocês que não deixaram de visitar o blog!
Teremos mais posts em breve!

No "Pedaço da Vila"


Luxoooooooooooooooooooooooooooooooo!!!!!
Valeu Denise!! Valeu Adriano!!!
O jornal "Pedaço da Vila" é distribuido gratuitamente em toda a Vila Mariana, com uma tiragem de 11.000 exemplares mensais. Esta matéria saiu na edição de setembro/08.

Playboyzada bêbada

Sábado à noite, show fechado na última hora, cachê negociado, equipamento ligado e a apresentação rolando. Barzinho quase vazio: só uma família e um casalzinho muito simpático curtindo o som. Noite fria em Sampa, rua meio deserta... mas as poucas pessoas estavam dando um feedback gostoso e o show estava rolando bem. Até que eles entraram.
Uns carinhas e umas meninas bem vestidos, uns 20 mais ou menos. Carrinho importado, cigarro na mão. Pediram uma rodada. E, pra acompanhar, vodca com energético. Muita vodca. E mais vodca. E mais vodca.
A cantora fez seu segundo intervalo. Pegou seu lanche, que já estava pronto e começou a comer com vontade, pois estava morrendo de fome. Sentada à mesa, de costas para o palco, ouve uma voz falando ao microfone. Vira-se e não acredita no que vê.



Simplesmente deu de cara com uma das meninas da turma da playboyzada - a essa altura já completamente bêbada - em cima do palco, ligando o SEU microfone, com um copo descomunal de (muita) vodca com (pouco) energético na mão.



They try to make me go to rehab and I say no, no, no...

Largou o lanche. Contou até três. Contou de novo até três. Contou até cinco. Contou até três de novo. Dirigiu-se à criatura embriagada que cantava horrendamente uma música qualquer pelo bar (o microfone era sem fio) contando até cinco mais uma vez. Ainda não tinha a certeza de que ia conseguir se controlar para não dar na cara da patricinha. Mas seu lado atriz controlou a situação dizendo, com delicadeza infantil, para o ser oxigenado que achava que estava abafando:



- Devolve o brinquedinho da tia, devolve, meu amor?


Um dos carinhas achava que tinha a voz do Tim Maia. Os outros 19 disseram que sim. Pediram mais vodca. E o Tim Maia quis cantar "Azul da cor do mar" no palco. Certamente, se estivesse sóbrio, não teria se saído mal.


Antes que aquilo virasse uma zona mais escabrosa, a cantora cantou até cinco de novo e reassumiu seu posto. Outros seis subiram ao palco feito chacretes. Ela contou até cinco mais uma vez e buscou, em seu repertório, as músicas mais animadas para aquele povo não parar de dançar - assim os manteria ocupados. E foi um tal de emendar Beatles com Raimundos, com Mamonas, com Glória Gaynor, com Kid Abelha, com Celly Campello, com Jorge Ben, com Roupa Nova...

Eu perguntava "Do you wanna dance?", E te abraçava "Do you wanna dance?"...

A patricinha que roubou seu microfone quis por que quis permanecer no palco, cantando algumas estrofes e alguns refrões. A cantora ficando bêbada só com o bafo de vodca da menina. E rezando para todos os santos e entidades para que aquele MALDITO copo não entornasse em cima das suas partituras e menos ainda em cima do seu equipamento.


Meia hora depois eles pagaram suas comandas, pegaram as chaves do carro e foram para outra balada. E a cantora desejou ardentemente que a polícia os parasse e levasse todo mundo preso numa blitz da lei seca. E, finalmente, terminou seu show e seu lanche.